POESIA TÁ FORA DE MODA? MAS E SE FOR UM VÍCIO?

Não sei se poesia está fora de moda, mas ando com vontade de fazer versinhos. Dando uma olhada nos meus arquivos, encontrei algumas coisas antigas, mas que podem ser bem legais. Acho que está na hora de virem ao mundo. E quem sabe assim recupero um pouco de inspiração... o meu vício!

Vício

Beira à loucura, beira à doença; mas é o Vício,
(Alimenta-se a goles intragáveis de impunidade)
O responsável direto por um homicídio
Que vitimou senhora de meia-idade: Sociedade

Houve quem quisesse justificá-lo: Doença
Houve até quem condenasse a Sociedade
E o tribunal assistiu à sessão ser suspensa
Já que o próprio juiz padecia da insanidade.



Escrito por Lília às 02h43
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




O DIA EM QUE VOCÊ NASCEU (2)

Deitei-me, mandei algumas mensagens, tirei uns cochilos, respondi a umas perguntas da enfermeira responsável por documentar a minha internação... A manhã estava interminável. Vovó Lucimar apareceu no quarto perto do almoço com as minhas “bolsas da maternidade”. Mesmo com o dia meio “cinza” e chuvinha fina, ela logo quis amarrar as cortinas e levantar as janelas. Depois decidiu baixar as janelas novamente. Levantá-las só um pouquinho. Estava ansiosa. Meia hora mais tarde, vi com alegria chegarem também papai Beto e vovó Rose.

Vovó Lucimar, como sempre super-hospitaleira e prática, sugeriu que o papai Beto fosse até em casa almoçar enquanto a vovó Rose me fazia companhia. E foi só eles saírem que a “arteira” vovó Rose deu sua escapadinha para fumar, livre dos olhares censores do papai Beto. Fiquei ali sozinha novamente pensando na vida, imaginando o momento em que me levariam para a sala de cirurgia. Vovô Gilson volta e meia aparecia no quarto. Perguntei, numa dessas vezes, em que horas faria o parto, e ele me disse que precisava esperar o Chicão, o qual estava participando de uma outra cirurgia em Sombrio, cidade vizinha.

Passou o almoço e logo chegou a hora do café da tarde – e eu ainda em completo jejum. Nesse ponto, estávamos todos no quarto: eu, as vovós e o papai Beto. De repente, um burburinho no corredor veio anunciar que era chegada a hora. O Chicão estava gripado e não mais viria. Vovô Gilson faria a cirurgia sozinho, com o auxílio de três enfermeiras.

Na sala de pré-parto, despi-me e vesti uma espécie de roupão azul de algodão. Uma enfermeira começou a explicar para outra, mais nova, como deveria introduzir a sonda na bexiga. Confesso que fiquei meio assustada nesse momento, pois já havia ouvido falar quão doloroso e perturbador era a introdução dessa sonda. Quando iniciaram o procedimento, fiquei mais calma. Não chegou a causar dor, apenas incomodava um pouco. A sonda era pra evitar que minha urina contaminasse o local da cirurgia. Uma espécie de “canudinho” desviava o líquido para uma bolsa coletora. Não dava pra esquecer que o tal “canudinho” estava enfiado ali. Ele se fazia sentir o tempo todo.

Papai Beto e vovó Lucimar me deram um beijo, e fui levada pelas enfermeiras para a sala de cirurgia. Lá, passei para outra maca e para as mãos do vovô Gilson. Enquanto ele preparava a raqui, as enfermeiras me colocaram no soro e instalaram eletrodos em três partes do meu corpo e no dedo, para monitorar meus batimentos cardíacos e minha pressão. Sentada, com as costas bem esticadas e cabeça baixa, fui anestesiada. Quando a gente olha o tamanho da injeção, dá um frio na barriga. É uma injeção grandona, com uma agulha comprida, parece que vai atravessar metade de você. Mas como eu já havia tido a experiência de levar uma injeção nas costas, aos 9 anos, quando tive meningite, tentei manter a calma. E só senti uma pressão, mas nada.

Aos poucos, fui perdendo a sensibilidade e os movimentos das pernas. As pernas ficam pesadas, e não há força que as levante (porque, na verdade, sua força não chega até elas). Quando já não sentia nada também na altura da barriga, vovô Gilson começou a cirurgia. Papai Beto teve que ficar olhando tudo de uma janelinha da porta, pois não foi autorizado a entrar. Por lei, vovô Gilson deveria ter permitido, mas a situação ali, com apenas um médico e ainda pai da paciente, inspirava precauções, inclusive emocionais. Uma enfermeira se incumbiu da tarefa de fazer a filmagem.

Você nasceu perto das 17h, de bunda. Posição pélvica completa. Eu sempre sonhei com um parto diferente, normal, emocionante, mas a posição pélvica do bebê numa mãe de primeira viagem é sempre indicação para cesárea. Não tive escolha. Puxada pela bunda, você logo eliminou mecônio. Vovô Gilson puxou uma perna, depois outra, um braço, depois outro, para então puxar sua cabeça pelo maxilar. Manobras perfeitas, um herói.

As enfermeiras bateram palma e deram os parabéns ao vovô, mas eu não escutei seu chorinho. Como não podia ver, devido ao pano branco que colocam, saberia do seu nascimento pelo tão esperado chorinho. Mas nada. Fiquei nervosa e perguntei por que não chorava, se já havia nascido. Vovô Gilson disse “calma, calma” e esperei. Segundos depois, aconteceu! Momento mais emocionante é esse em que escutamos nosso pequeno ser anunciando sua chegada ao mundo. A emoção é incalculável e indescritível. Chorei copiosamente.

Com você nos braços, vovô Gilson se aproximou, e pude conhecer seu rostinho lindo. Parecia tão pequenina, “quanto pesaria?”, pensei. Mas não era pequena não... Você nasceu medindo 52 cm e com 3,650 kg, um ótimo comprimento e peso, um bebê até grande aos padrões da época. Índice de Apgar 8/9. Vovô Gilson diria depois que nos comportamos muito bem na cirurgia. Nenhuma complicação, pouco sangue. Diria também outras coisas não tão legais. Minha placenta era anômala, acho que tinha o tamanho menor do que deveria; e o cordão umbilical não tinha geleia de wharton onde deveria ter. Pela ausência da geleia de wharton, o cordão poderia ter se dobrado em algum momento da gravidez e impedido a passagem de oxigênio e nutrientes até você. Mas você estava salva, graças a Deus, e logo viria para os meus braços.

Depois fiquei pensando que havia sido providencial a posição em que você se encontrava na minha barriga, e o fato também de eu ter pouca água, o que teria contribuído para que você não se movesse muito... Eu chamo isso de proteção Divina.

Você foi levada para outra sala, onde seria medida, pesada e vestida. Papai Beto passou a acompanhar tudo de pertinho, sem perder você de vista. Eu ainda fiquei uma meia hora na sala de cirurgia sendo costurada. O pior de estar ali era não poder estar lá. Minha cabeça estava lá, naquela salinha onde a paparicavam. Parece até que passou a doer muito mais a cirurgia nesse momento do que em qualquer outro, especialmente do lado direito. Foi a meia hora mais longa e dolorida da minha vida!

De volta ao quartinho rosa, lá estava você com duas vovós e um papai Beto eufóricos. Eu estava ansiosa para dar o peito. Depois de passar da maca para a cama com muito custo e muita dor, pedi ajuda ao vovô Gilson para dar de mamar. A dor era imensa e os movimentos muito limitados, devido à anestesia, mas eu fiz todo o esforço necessário para que você pudesse sugar o colostro. E você logo pegou o peito com força e eficiência. Meus peitos estavam inchados e grandes.



Escrito por Lília às 09h28
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




O DIA EM QUE VOCÊ NASCEU (1)

Acordei com o vovô Gilson entrando de supetão no quarto, dizendo que queria me examinar. Nos últimos dias, eu passara a dormir na cama de baixo do beliche do quarto dos meninos, que fica ao lado do quarto dos meus pais, junto com o titio Thiago. As madrugadas estavam mais estranhas; o sono, mais difícil; então concluí que seria menos torturante não ficar num quarto sozinha. Quando olhei o relógio, espantei-me com a hora: ainda nem eram sete da manhã.

Sem questionar, levantei-me e comecei a me preparar para ir ao hospital. Enquanto me arrumava, vovó Lucimar também apareceu para dizer que não era para eu tomar café, água, comer nada. Entendi que vovô Gilson estava suspeitando que teria que me operar naquele dia. Mas por que havia mudado de ideia, já que o planejado era realizar minha cesárea no sábado e ainda era quarta-feira? Não sei se cheguei a perguntar, simplesmente deixei que conduzisse toda a situação. Meu único desejo era esperar a chegada do papai Beto, que, até então, nem suspeitava de nada. Precisava avisá-lo o quanto antes.

Fomos ao hospital e lá se verificou um dedo de dilatação. Pensei “Como assim, estou entrando em trabalho de parto?”. Não sentia absolutamente nada, a não ser endurecer a barriga de vez em quando (se bem que, nas últimas horas, minha barriga parecia ter congelado no estado dura). As enfermeiras me levaram até o quarto, me entregaram uma manta e, nesse instante, eu estava “oficialmente” internada para dar à luz. Olhei a minha volta e não havia ninguém. Vovô Gilson já havia desaparecido nos corredores do hospital.

O quarto era o último do corredor (da ala cirúrgica), à esquerda, no térreo, perto de uma escadaria que dá para uma saída lateral do hospital – escadaria onde, aliás, lembro-me de ver ser velado, ainda na infância, um morto. Meio sinistro até, a contar com as minhas lembranças. Mas na verdade, era um quartinho até simpático, muito simples, com paredes rosa-bebê e cortinas de um tecido estampado bem fininho. Era bem ventilado, único no lugar com duas janelas, uma para o jardim, outra para a rua. No banheiro, tudo bem antigo, e nada de cortina ou box no espaço destinado ao banho. Não era como os “apartamentos” da Clínica Jane, para onde eu correria se estivesse em Florianópolis. Mas ali eu me sentia em casa.

Liguei para o papai Beto e avisei que nossa bebê nasceria em poucas horas. Ele estava no trabalho, a três horas e meia de distância, e tomou um susto. Também aguardava o parto para o sábado. Questionou os “agouros” do dia (11), perguntou o que havia acontecido, mas enfim resolveu agilizar quando eu mencionei que o vovô Gilson não estava nem querendo esperar que ele chegasse. E era verdade. É claro que eu faria o possível para evitar a sua chegada ao mundo sem a presença do seu pai, mas quando o vovô Gilson decide uma coisa, é caso encerrado. Sorte a nossa, fiquei sabendo mais tarde, que o seu colega Chicão, anestesista que o auxilia nos partos, só estaria livre depois das 14h.



Escrito por Lília às 16h43
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




AMAMENTAR

São 22h45 e minha Elisa dorme tranquila. Prestes a completar dois meses, já se acostumou a dormir sempre no mesmo horário, perto das 22h. Criou esse hábito sozinha, e eu fiquei muito satisfeita. Às vezes vai até às 11h no bercinho, acordando duas ou três vezes para mamar. Durante o dia, descarrega suas baterias (e as minhas). O único que falta é aprender a mamar. Mama com preguiça e sem muita “pegada”. Fico com uma pulga atrás da orelha... Falta de fome? Refluxo? Cólicas? Ser mãe é não saber nada mesmo!

Tive uma vez um daqueles sonhos que se repetem em outras madrugadas. Na primeira vez, eu devia ter uns 20 anos; na última, estava grávida, aos 28 anos. Nele eu tinha um bebezinho no colo, uma menina, e o colocava para mamar no peito. Ela mamava e mamava, mamava e chorava, e quanto mais mamava, mais encolhia, até sumir. Eu acordava perturbada. Por ter os seios pequenos e o desejo grande de amamentar, esse sonho mexia profundamente com o meu ego. Nunca liguei para o fato de serem pequenos, desde que servissem para alguma coisa...

Na primeira consulta com o obstetra, lembro-me de ter perguntado quais eram as chances de eu poder amamentar. E a resposta estava pronta, era a mesma que me dariam outras vezes no banco de leite de duas maternidades, mesmo diante de evidências contrárias: “todas as mulheres possuem praticamente o mesmo número de glândulas mamárias e produzem leite suficiente para alimentar até dois bebês, independente do tamanho dos seios”. Todas as mulheres... Hum... Dois bebês... Fiquei mais tranquila, afinal, eu só esperava um. E mesmo quando, já no finalzinho da gravidez, meus seios quase não haviam aumentado e ainda não davam sinal de leite, ainda assim meu médico reforçou o discurso de que seria “batata” amamentar. O leite brotaria como num passe de mágica segundos depois de dar à luz.

“Maravilha”, pensei. Comprei absorvente de seio, sutiã, pijamas próprios, investi mesmo na ideia e no sonho de amamentar meu bebê, que naquela altura já sabia ser uma menina. Mas o sonho se revelou um filme de terror. Meu leite desceu e meus peitos empedraram, doíam, e apesar disso, eu era só felicidade. Logo meus mamilos estariam rachados e jorrariam sangue, mas isso não importava. O que eu não suportava e não entendia era o choro da minha filha. Numa noite em que chorou a madrugada toda, devia ter uns 10 dias, tive o impulso de pedir que me comprassem uma mamadeira e uma lata de leite. Mas voltei atrás e não dei.

Nesse mesmo dia, deixei a casa dos meus pais para enfrentar o desafio de ser mãe “sozinha”. Meu marido, só depois das 18h. Virei prisioneira das vontades da Elisa. Ela mamava o tempo todo (livre demanda!) e ainda assim não parava de chorar, nem dormia, só quando já estava esgotada. Eu achava tão estranho, mas me diziam que eram cólicas. Eu acreditava que eram cólicas. E quando ela apagava alguns minutinhos, eu corria a preparar chá de erva doce para “melhorar” meu leite. Mas o choro não cessava.

Passado um mês do mais puro terror, no qual não me lembro de ver um sorriso no rosto da minha pequena, a pediatra foi dura: sua bebê só engordou a metade do que devia ter engordado, precisa complementar. Só isso. E eu, já esgotada, com uma montanha de culpa pesando sobre minhas costas, nem atentei que, ao dar mamadeira, ela podia passar a rejeitar o peito (que já nem gostava, pois brigava com ele o tempo todo) e lógico que foi o que aconteceu. Um dia depois de começar a complementar as mamadas e de vê-la dormir o dia todo, um dia depois de achar que tinha descoberto a mina de ouro, começou a segunda parte do filme. Ela não quis mais o peito.

Procurei ajuda em maternidades, mas o discurso era muito igual, muito vazio diante da profundidade do meu problema. Só diziam "mãe, você tem muito leite, não dê mamadeira", o que pra mim era o mesmo que dizer "mãe, deixe ela passar mais fome". Deixei tudo isso de lado e comprei uma bombinha para tirar meu leite. Comecei a dar meu leite na mamadeira mesmo, intercalado com mamadeiras de Nan. Foi assim durante duas semanas, quando passei a odiar o ritual da ordenha. Sentia-me frustrada. Aos poucos, comecei a diminuir as retiradas de leite e meus peitos foram secando progressivamente, até não sair mais uma gota. Queria sentir prazer no ato de amamentar minha filha, nem que fosse de mamadeira mesmo. Queria esquecer que meus peitos não haviam servido de nada.



Escrito por Lilinha às 18h29
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




CHORO DE MÃE

Quando me tornei mãe, vi o quanto havia idealizado esse momento. E, quando se "idealiza", significa que se acha que tudo será perfeito. Eu achava mesmo. Nunca pensei que ficaria insegura, frustrada e irritada, que teria vontade de atirar minha filha pela janela, que ficaria uma semana sem lavar o cabelo, um mês de pijama andando feito uma moribunda perdida na própria casa. Tomando inúteis litros e mais litros de água, e muito chá de erva doce no lugar do café, pro leite do peito não acalentar a filha. Nunca imaginei que o choro da bebê seria de fome. E que eu choraria ainda mais do que ela... Quando me tornei mãe, me descobri uma mãe neurótica. Fiquei insuportável. Fiquei até burra...



Escrito por Lilinha às 23h11
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




FLORIPA NOVIDADE

Quando vim morar em Floripa, no “auge” dos meus 17 anos, estava acontecendo a construção do viaduto do CIC. Entre 18h e 20h, ir da Universidade Federal ao Shopping Beiramar (único shopping da Ilha naquela época) de bicicleta era infinitamente mais rápido do que de ônibus. Exceto por uma ou outra surpresa, como a “brisa” soprando da baía ou o odor “agradável” do mangue, mais interessante também. Fazia isso sempre, até contrair uma infecção na garganta.

Eu recebia R$ 150 de mesada e o dinheiro durava até o fim do mês. É fácil entender... Ônibus: R$ 0,50 (eu, por seu estudante, pagava R$ 0,25). Ônibus mês: R$ 6,00, com aula nos sábados. E alguns ainda tinham ar-condicionado! Esse era o tempo das fichinhas entregues num saco plástico. E das filas intermináveis para comprá-las. As filas não mudaram, aliás. Com R$ 5,00 se comia muito e bem. Em restaurantes legais, como o Família e o Dona Benta, no Córrego Grande. Sobrava ainda um troquinho pra comprar lanche no colégio.

A Lupus Beer Dance era a boate da moda. Engarrafamento, em Floripa, só nos sábados, na SC-401, próximo à entrada da Lupus. E a gente ainda dava um jeito, desviando pela Virgílio Várzea (que era uma pirambeira) e entrando pelos fundos da boate. Por falar em trânsito, dava pra contar todos os sinais (ou semáforos) espalhados pela cidade. Na Avenida Beira-Mar havia, se não me engano, apenas três: no cruzamento com a Mauro Ramos, no cruzamento com a Gama D'Eça e próximo ao terminal rodoviário.

A tradicional Festa da Laranja, nessa época, tinha mais laranja do que cocada. As bandas eram boas; e o público, mais civilizado. Dava até pra paquerar. O Angeloni, no Santa Mônica, era o Supermercado Santa Mônica. E lembro que ficava hipnotizada com as construções que estavam surgindo na Beira-Mar. Uma delas era a do edifício Acqua Marine. Parecia coisa de Primeiro Mundo. A cidade começava a ficar bem cara...

Quando vim morar em Floripa, já sabia que iria ficar.



Escrito por Lilinha às 15h57
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




O BAILARINO

Estranho comentário aquele, sempre o mesmo, de quando reclamávamos a meu pai durante as torturantes sessões de “ginástica”, meu irmãozinho aos berros, chorando de dor:

― Pai, desse jeito o Thiago vai virar bailarino.

― Deus queira, minha filha, Deus queira... ― dizia ele, o olhar para o alto assim como se fizesse uma prece.

E eu, tão inocente ainda, não entendia como logo aquele pai tão severo e machista desejava com tamanha veemência ter um filho bailarino. Parecia-me um desejo estranho. Intrigava-me e me fazia rir. Não percebia o verdadeiro significado daquelas palavras.

Eu era apenas uma criança de seis, sete anos. Como era a mais forte de três irmãos saudáveis (ainda que não fosse a mais velha), me tocava ajudar no que menos gostava, aliás, no que menos gostávamos os três: segurar com força uma das pernas de Thiago enquanto papai levantava a outra até formar um ângulo de 90 graus entre as duas. Eu, de joelhos, deixa-me pesar sobre aquela perninha tão magra e frágil, uma mão antes e outra logo abaixo do joelho. Não podia deixar dobrar-se, nem por pena, nem por descuido. Disso dependia a performance de nosso futuro bailarino. Aprendi a ignorar os berros de Thiago e a ser menos sensível a sua dor.

Foram incontáveis sessões de fisioterapia, mas Thiago jamais voltou a caminhar. Cresceu diferente e teve uma infância nada parecida com a nossa. Enquanto brincávamos na rua com coleguinhas, subíamos nas árvores do quintal, saltávamos do balanço, corríamos atrás dos coelhinhos e caçávamos pererecas, Thiago rolava pelo chão e estacionava, dez, vinte, trinta vezes sua coleção de carrinhos no rodapé das paredes de casa ou assistia a tudo de longe, sentado numa cadeira de rodas. Mas nunca estava triste, nem chorava por qualquer coisa.

Só abria mesmo o berreiro quando papai recomeçava outra sessão de fisioterapia ou quando era preso num aparelho de madeira construído especialmente para ele, que o mantinha ereto, com as perninhas superesticadas. Aquilo devia doer muito, pois ele chegava a ficar vermelho de tanto chorar. E chorava também nas poucas vezes em que era contrariado, pois papai gostava de fazer todas as suas vontades e Thiago acabou virando um menino mimado. Nunca o vi chorar senão por esses motivos.

Lembro-me da primeira vez em que o vi dar alguns passinhos ligeiros, ainda meio cambaleantes – os únicos que ficaram guardados na minha memória. Tinha então onze meses de vida, era gordo e aparentemente saudável. Mamãe o levou para o quarto do piano e o colocou de pé ao lado do instrumento, com as mãozinhas apoiadas nas teclas. Afastou-se alguns metros para bater uma foto e, quando voltou a vê-lo através da lente da câmera, estava caminhando em sua direção, com os braços abertos, tentando equilibrar-se. Sorria. Três meses e algumas cirurgias depois e parecia um boneco sem expressão, uma marionete.

É preciso explicar: Thiago nasceu normal, em 25 de maio de 1984. Com um ano e dois meses descobriu-se que tinha um problema cardíaco. Uma das válvulas que bombeiam o sangue no coração não funcionava direito e parou de repente, causando sucessivas paradas cardíacas. Numa dessas paradas, seu coração ficou sem funcionar durante 45 minutos, o suficiente para danificar seu cérebro e mudar totalmente a sua tão pequenina vida. Difícil saber se, algum dia, essa criança tomou consciência de tamanha mudança. Difícil saber quem teríamos sido sem seu exemplo de superação.



Escrito por Lilinha às 16h36
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




QUÉ PASA?

Alguma coisa está acontecendo comigo...
Tenho as mãos “moles” e a cabeça dura.
Trocaria uma barra de chocolate por um pacote de Ruffles.
E não vou beber no fim de semana.

Alguma coisa está acontecendo... Comigo.
Troquei os remédios pelo bom-humor.
Que não seja um caso de vida ou morte, meu Deus.
Ou que seja, sim, um caso de vida!



Escrito por Lilinha às 16h45
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




MENTE SEM FRONTEIRAS



Escrito por Lilinha às 10h26
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




DESPEDIDA

Na sala sobre o sofá, flores, vinho e chocolate. Havia também uma carta. Não mais como aquelas cartas do passado, perfumadas e escritas a mão. Uma folha A4 de papel sulfite com pensamentos digitados no computador e impressa numa jato de tinta. Soltei a bolsa na mesa de jantar e passei de largo até o quarto, olhando tudo de canto de olho. Havíamos combinado um encontro para discutirmos a separação, portanto, não estava muito receptiva a surpresas.

A roupa de um dia inteiro de trabalho e o sapato de salto (embora fosse um anabela) me sufocavam. Precisava me trocar. “Agora isso?”, pensei enquanto me despia. “Ele ainda não aprendeu que detesto flores?”. Mas desde quando as detesto? Voltei até a sala a passos lentos, relutando e desejando que tudo, de uma forma milagrosa, já não estivesse mais lá. Detesto flores, mas adoro cartas. Sentei-me ao sofá e me pus a ler aquelas linhas tão bem traçadas. Chorei.

Se ele soubesse o poder que as palavras exercem sobre mim, teria cumprido a promessa de me mandar uma carta por semana – de quando fez picadinho das minhas valiosas histórias de outros tempos. Tinha um ciúme doentio que ele sempre justificava como “excesso de amor” e de repente era capaz de perdoar todas as minhas traições. Excesso e falta de amor, meu caro, mas fiquei comovida. Não é todo dia que a gente cruza com alguém que nos ama de maneira incondicional.

Estava tão cansada! Olhei-me no espelho e vi que os anos já começavam a deteriorar-me. Há tempo para duas rodelas de pepino ou chumaços de algodão embebidos em camomila para amenizar as olheiras? Há solução para dois corações partidos? Tirei tudo do sofá, liguei a TV, apaguei todas as luzes da casa e me deixei cair esticada sobre as almofadas. Ele logo chegaria e eu precisava me abstrair daquilo tudo, precisava de alguns minutos de morte nesta vida...

Ele chegou quando eu já dormia. A campainha soou como uma buzina de caminhão. Levantei-me de sobressalto. Era o momento de falar cara a cara, de olhar nos olhos, de experimentar a sensação de presença depois de algumas semanas de ausência – e fingir maturidade. Tão doce e tão apaixonado... Não sei como não me desarmou no primeiro momento. Tive raiva daquela situação. Não era a primeira vez, não seria a última, mas definitivamente uma das conversas mais difíceis de nossas vidas.

Fraquejei várias vezes. Deixei que me beijasse quase sempre. Pensei em dizer que havia sido uma boba e que o queria tanto quanto antes. Desejei que me levasse pra cama... Mas é engraçado como uma boa dose de razão e algumas sessões de terapia podem brecar os mais intensos sentimentos. No final, decidimos como se daria a partilha dos bens e ele começou a descer com as suas coisas. Precisava dar um rumo na vida, ele disse. Torci para que esquecesse o relógio e me deixasse com uma boa desculpa caso quisesse vê-lo desesperadamente no futuro.



Escrito por Lilinha às 14h06
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]




UM BOM AMIGO

Ninguém entendia aquela amizade. Ninguém acreditava na inocência deles. “Não existe amizade entre um homem e uma mulher”, “História da carochinha”, “Quem está enganando quem?”. No fundo ela também sabia que, na primeira oportunidade, ele tentaria beijá-la; na segunda, estaria tirando suas roupas; e poderia ser que ela não o mandasse parar. Com um oceano entre eles, no entanto, não havia por que se preocupar com isso.

Ela estava casada. Ele saía para “caçar” nos fins de semana. Trocavam alguns e-mails semanais contando as novidades e descrevendo fatos do dia-a-dia. Às vezes escreviam também sobre os planos para o futuro. Ela queria ter filhos. Ele se mudava com freqüência. Ambos queriam passar o próximo carnaval no Rio de Janeiro assistindo aos desfiles na Sapucaí. Ambos queriam abraçar o mundo, mas volta e meia tinham que beijar o “diabo”.

Antes dos 20 já moravam sozinhos. Até os 25 tinham concluído a faculdade. Pagavam suas contas em dia, embora ela, às vezes, entrasse no vermelho enquanto ele sempre conseguia guardar uns trocadinhos na poupança. Ele tinha carro e fazia viagens, ela “viajava” todo dia no ônibus – pensava nas coisas que ele escrevia, no cachorro que não comia, na roupa que não cabia, na espinha tardia, na paixão de um dia... Não se viam (a não ser pela câmera do computador) havia mais de três anos.

Era uma amizade um tanto incomum aos padrões modernos: sem ciúmes ou cobranças, sem interesses ou grandes expectativas – mas indispensável. Se ele não escrevesse durante mais de uma semana, ela sempre iniciava seus e-mails com um “oi, desaparecido”, e a resposta vinha no dia seguinte. Era um código deles, sinônimo de “saudade”, uma palavra que, embora não existisse na língua dele, ele entendia muito bem. Volta e meia também sentia saudade dela.

Ela estava em Florianópolis; ele, em Madri. Conheceram-se durante uma viagem de intercâmbio. Ele gostou dela primeiro. Ela se deixou conquistar por ele. Não eram só os interesses em comum: havia sintonia. Ela logo descobriu que ele gostava de falar de futebol, que era família e que mordia os lábios sempre que estava ansioso. Ele logo soube que ela era tímida, que não se deixaria embebedar e que tinha medo de escuro (aproveitou-se disso para acompanhá-la até sua casa em várias oportunidades).

Gostavam de conversar. Ela falava demais e ele falava mais do que ela, o que a deixava confusa. Mas ela achava que havia muito sentido em tudo o que ele dizia e deixava que ele falasse sem parar. Depois começaram as cartas e os e-mails – às vezes três, quatro e-mails ao dia – e foram ficando viciados um nas palavras do outro. Tudo era motivo para um novo texto, uma nova linha. Assim ele soube que ela havia conseguido seu primeiro emprego, comprado um cachorro, eleito um presidente, experimentado um cigarro; assim ela soube que ele havia perdido um avô, sofrido um acidente, cortado o cabelo, mudado de endereço...

Ele a ensinou muitas palavras que ela não conhecia. Ela o ensinou a perseguir sonhos. Ambos aprenderam a acreditar em destino.



Escrito por Lilinha às 16h25
[   ] [ Envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 

Como qualquer menina romântica nascida no início da década de 80, eu tive um diário. Aliás, tive vários. Mas chegou um momento em que achei que deveria queimá-los todos. Havia perdido o gosto pela autobiografia e a confiança naqueles pequenos cadeados que prometiam uma falsa inviolabilidade (até o seu irmãozinho de quatro anos poderia abri-los com a pontinha de qualquer coisa). Aconteceu que um dia meus pais me forçaram a uma conversa privada, e descobri que meus segredos não estavam mesmo seguros. Essa invasão na minha privacidade afetou minha fé nas pessoas. Mas, mais do que isso, impôs uma boa dose de censura aos meus textos, até que eu não mais conseguisse escrever uma única linha sobre mim mesma. Escrever neste blog, portanto, é um desafio e uma reaproximação com a escrita "parcial". Já não devo satisfações. Se existe uma maneira de tornar as coisas invioláveis, é oferecendo a chave do cadeado...

Histórico
Outros sites
  Anacrônicas (Guia Floripa)
  Blog do Dogman
  Ocioso.com.br
  Táxi Tramas
  Universo Online
Votação
  Dê uma nota para meu blog