FLORIPA NOVIDADE

Quando vim morar em Floripa, no “auge” dos meus 17 anos, estava acontecendo a construção do viaduto do CIC. Entre 18h e 20h, ir da Universidade Federal ao Shopping Beiramar (único shopping da Ilha naquela época) de bicicleta era infinitamente mais rápido do que de ônibus. Exceto por uma ou outra surpresa, como a “brisa” soprando da baía ou o odor “agradável” do mangue, mais interessante também. Fazia isso sempre, até contrair uma infecção na garganta.

Eu recebia R$ 150 de mesada e o dinheiro durava até o fim do mês. É fácil entender... Ônibus: R$ 0,50 (eu, por seu estudante, pagava R$ 0,25). Ônibus mês: R$ 6,00, com aula nos sábados. E alguns ainda tinham ar-condicionado! Esse era o tempo das fichinhas entregues num saco plástico. E das filas intermináveis para comprá-las. As filas não mudaram, aliás. Com R$ 5,00 se comia muito e bem. Em restaurantes legais, como o Família e o Dona Benta, no Córrego Grande. Sobrava ainda um troquinho pra comprar lanche no colégio.

A Lupus Beer Dance era a boate da moda. Engarrafamento, em Floripa, só nos sábados, na SC-401, próximo à entrada da Lupus. E a gente ainda dava um jeito, desviando pela Virgílio Várzea (que era uma pirambeira) e entrando pelos fundos da boate. Por falar em trânsito, dava pra contar todos os sinais (ou semáforos) espalhados pela cidade. Na Avenida Beira-Mar havia, se não me engano, apenas três: no cruzamento com a Mauro Ramos, no cruzamento com a Gama D'Eça e próximo ao terminal rodoviário.

A tradicional Festa da Laranja, nessa época, tinha mais laranja do que cocada. As bandas eram boas; e o público, mais civilizado. Dava até pra paquerar. O Angeloni, no Santa Mônica, era o Supermercado Santa Mônica. E lembro que ficava hipnotizada com as construções que estavam surgindo na Beira-Mar. Uma delas era a do edifício Acqua Marine. Parecia coisa de Primeiro Mundo. A cidade começava a ficar bem cara...

Quando vim morar em Floripa, já sabia que iria ficar.



Escrito por Lilinha às 15h57
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O BAILARINO

Estranho comentário aquele, sempre o mesmo, de quando reclamávamos a meu pai durante as torturantes sessões de “ginástica”, meu irmãozinho aos berros, chorando de dor:

― Pai, desse jeito o Thiago vai virar bailarino.

― Deus queira, minha filha, Deus queira... ― dizia ele, o olhar para o alto assim como se fizesse uma prece.

E eu, tão inocente ainda, não entendia como logo aquele pai tão severo e machista desejava com tamanha veemência ter um filho bailarino. Parecia-me um desejo estranho. Intrigava-me e me fazia rir. Não percebia o verdadeiro significado daquelas palavras.

Eu era apenas uma criança de seis, sete anos. Como era a mais forte de três irmãos saudáveis (ainda que não fosse a mais velha), me tocava ajudar no que menos gostava, aliás, no que menos gostávamos os três: segurar com força uma das pernas de Thiago enquanto papai levantava a outra até formar um ângulo de 90 graus entre as duas. Eu, de joelhos, deixa-me pesar sobre aquela perninha tão magra e frágil, uma mão antes e outra logo abaixo do joelho. Não podia deixar dobrar-se, nem por pena, nem por descuido. Disso dependia a performance de nosso futuro bailarino. Aprendi a ignorar os berros de Thiago e a ser menos sensível a sua dor.

Foram incontáveis sessões de fisioterapia, mas Thiago jamais voltou a caminhar. Cresceu diferente e teve uma infância nada parecida com a nossa. Enquanto brincávamos na rua com coleguinhas, subíamos nas árvores do quintal, saltávamos do balanço, corríamos atrás dos coelhinhos e caçávamos pererecas, Thiago rolava pelo chão e estacionava, dez, vinte, trinta vezes sua coleção de carrinhos no rodapé das paredes de casa ou assistia a tudo de longe, sentado numa cadeira de rodas. Mas nunca estava triste, nem chorava por qualquer coisa.

Só abria mesmo o berreiro quando papai recomeçava outra sessão de fisioterapia ou quando era preso num aparelho de madeira construído especialmente para ele, que o mantinha ereto, com as perninhas superesticadas. Aquilo devia doer muito, pois ele chegava a ficar vermelho de tanto chorar. E chorava também nas poucas vezes em que era contrariado, pois papai gostava de fazer todas as suas vontades e Thiago acabou virando um menino mimado. Nunca o vi chorar senão por esses motivos.

Lembro-me da primeira vez em que o vi dar alguns passinhos ligeiros, ainda meio cambaleantes – os únicos que ficaram guardados na minha memória. Tinha então onze meses de vida, era gordo e aparentemente saudável. Mamãe o levou para o quarto do piano e o colocou de pé ao lado do instrumento, com as mãozinhas apoiadas nas teclas. Afastou-se alguns metros para bater uma foto e, quando voltou a vê-lo através da lente da câmera, estava caminhando em sua direção, com os braços abertos, tentando equilibrar-se. Sorria. Três meses e algumas cirurgias depois e parecia um boneco sem expressão, uma marionete.

É preciso explicar: Thiago nasceu normal, em 25 de maio de 1984. Com um ano e dois meses descobriu-se que tinha um problema cardíaco. Uma das válvulas que bombeiam o sangue no coração não funcionava direito e parou de repente, causando sucessivas paradas cardíacas. Numa dessas paradas, seu coração ficou sem funcionar durante 45 minutos, o suficiente para danificar seu cérebro e mudar totalmente a sua tão pequenina vida. Difícil saber se, algum dia, essa criança tomou consciência de tamanha mudança. Difícil saber quem teríamos sido sem seu exemplo de superação.



Escrito por Lilinha às 16h36
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QUÉ PASA?

Alguma coisa está acontecendo comigo...
Tenho as mãos “moles” e a cabeça dura.
Trocaria uma barra de chocolate por um pacote de Ruffles.
E não vou beber no fim de semana.

Alguma coisa está acontecendo... Comigo.
Troquei os remédios pelo bom-humor.
Que não seja um caso de vida ou morte, meu Deus.
Ou que seja, sim, um caso de vida!



Escrito por Lilinha às 16h45
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MENTE SEM FRONTEIRAS



Escrito por Lilinha às 10h26
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DESPEDIDA

Na sala sobre o sofá, flores, vinho e chocolate. Havia também uma carta. Não mais como aquelas cartas do passado, perfumadas e escritas a mão. Uma folha A4 de papel sulfite com pensamentos digitados no computador e impressa numa jato de tinta. Soltei a bolsa na mesa de jantar e passei de largo até o quarto, olhando tudo de canto de olho. Havíamos combinado um encontro para discutirmos a separação, portanto, não estava muito receptiva a surpresas.

A roupa de um dia inteiro de trabalho e o sapato de salto (embora fosse um anabela) me sufocavam. Precisava me trocar. “Agora isso?”, pensei enquanto me despia. “Ele ainda não aprendeu que detesto flores?”. Mas desde quando as detesto? Voltei até a sala a passos lentos, relutando e desejando que tudo, de uma forma milagrosa, já não estivesse mais lá. Detesto flores, mas adoro cartas. Sentei-me ao sofá e me pus a ler aquelas linhas tão bem traçadas. Chorei.

Se ele soubesse o poder que as palavras exercem sobre mim, teria cumprido a promessa de me mandar uma carta por semana – de quando fez picadinho das minhas valiosas histórias de outros tempos. Tinha um ciúme doentio que ele sempre justificava como “excesso de amor” e de repente era capaz de perdoar todas as minhas traições. Excesso e falta de amor, meu caro, mas fiquei comovida. Não é todo dia que a gente cruza com alguém que nos ama de maneira incondicional.

Estava tão cansada! Olhei-me no espelho e vi que os anos já começavam a deteriorar-me. Há tempo para duas rodelas de pepino ou chumaços de algodão embebidos em camomila para amenizar as olheiras? Há solução para dois corações partidos? Tirei tudo do sofá, liguei a TV, apaguei todas as luzes da casa e me deixei cair esticada sobre as almofadas. Ele logo chegaria e eu precisava me abstrair daquilo tudo, precisava de alguns minutos de morte nesta vida...

Ele chegou quando eu já dormia. A campainha soou como uma buzina de caminhão. Levantei-me de sobressalto. Era o momento de falar cara a cara, de olhar nos olhos, de experimentar a sensação de presença depois de algumas semanas de ausência – e fingir maturidade. Tão doce e tão apaixonado... Não sei como não me desarmou no primeiro momento. Tive raiva daquela situação. Não era a primeira vez, não seria a última, mas definitivamente uma das conversas mais difíceis de nossas vidas.

Fraquejei várias vezes. Deixei que me beijasse quase sempre. Pensei em dizer que havia sido uma boba e que o queria tanto quanto antes. Desejei que me levasse pra cama... Mas é engraçado como uma boa dose de razão e algumas sessões de terapia podem brecar os mais intensos sentimentos. No final, decidimos como se daria a partilha dos bens e ele começou a descer com as suas coisas. Precisava dar um rumo na vida, ele disse. Torci para que esquecesse o relógio e me deixasse com uma boa desculpa caso quisesse vê-lo desesperadamente no futuro.



Escrito por Lilinha às 14h06
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UM BOM AMIGO

Ninguém entendia aquela amizade. Ninguém acreditava na inocência deles. “Não existe amizade entre um homem e uma mulher”, “História da carochinha”, “Quem está enganando quem?”. No fundo ela também sabia que, na primeira oportunidade, ele tentaria beijá-la; na segunda, estaria tirando suas roupas; e poderia ser que ela não o mandasse parar. Com um oceano entre eles, no entanto, não havia por que se preocupar com isso.

Ela estava casada. Ele saía para “caçar” nos fins de semana. Trocavam alguns e-mails semanais contando as novidades e descrevendo fatos do dia-a-dia. Às vezes escreviam também sobre os planos para o futuro. Ela queria ter filhos. Ele se mudava com freqüência. Ambos queriam passar o próximo carnaval no Rio de Janeiro assistindo aos desfiles na Sapucaí. Ambos queriam abraçar o mundo, mas volta e meia tinham que beijar o “diabo”.

Antes dos 20 já moravam sozinhos. Até os 25 tinham concluído a faculdade. Pagavam suas contas em dia, embora ela, às vezes, entrasse no vermelho enquanto ele sempre conseguia guardar uns trocadinhos na poupança. Ele tinha carro e fazia viagens, ela “viajava” todo dia no ônibus – pensava nas coisas que ele escrevia, no cachorro que não comia, na roupa que não cabia, na espinha tardia, na paixão de um dia... Não se viam (a não ser pela câmera do computador) havia mais de três anos.

Era uma amizade um tanto incomum aos padrões modernos: sem ciúmes ou cobranças, sem interesses ou grandes expectativas – mas indispensável. Se ele não escrevesse durante mais de uma semana, ela sempre iniciava seus e-mails com um “oi, desaparecido”, e a resposta vinha no dia seguinte. Era um código deles, sinônimo de “saudade”, uma palavra que, embora não existisse na língua dele, ele entendia muito bem. Volta e meia também sentia saudade dela.

Ela estava em Florianópolis; ele, em Madri. Conheceram-se durante uma viagem de intercâmbio. Ele gostou dela primeiro. Ela se deixou conquistar por ele. Não eram só os interesses em comum: havia sintonia. Ela logo descobriu que ele gostava de falar de futebol, que era família e que mordia os lábios sempre que estava ansioso. Ele logo soube que ela era tímida, que não se deixaria embebedar e que tinha medo de escuro (aproveitou-se disso para acompanhá-la até sua casa em várias oportunidades).

Gostavam de conversar. Ela falava demais e ele falava mais do que ela, o que a deixava confusa. Mas ela achava que havia muito sentido em tudo o que ele dizia e deixava que ele falasse sem parar. Depois começaram as cartas e os e-mails – às vezes três, quatro e-mails ao dia – e foram ficando viciados um nas palavras do outro. Tudo era motivo para um novo texto, uma nova linha. Assim ele soube que ela havia conseguido seu primeiro emprego, comprado um cachorro, eleito um presidente, experimentado um cigarro; assim ela soube que ele havia perdido um avô, sofrido um acidente, cortado o cabelo, mudado de endereço...

Ele a ensinou muitas palavras que ela não conhecia. Ela o ensinou a perseguir sonhos. Ambos aprenderam a acreditar em destino.



Escrito por Lilinha às 16h25
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Como qualquer menina romântica nascida no início da década de 80, eu tive um diário. Aliás, tive vários. Mas chegou um momento em que achei que deveria queimá-los todos. Havia perdido o gosto pela autobiografia e a confiança naqueles pequenos cadeados que prometiam uma falsa inviolabilidade (até o seu irmãozinho de quatro anos poderia abri-los com a pontinha de qualquer coisa). Aconteceu que um dia meus pais me forçaram a uma conversa privada, e descobri que meus segredos não estavam mesmo seguros. Essa invasão na minha privacidade afetou minha fé nas pessoas. Mas, mais do que isso, impôs uma boa dose de censura aos meus textos, até que eu não mais conseguisse escrever uma única linha sobre mim mesma. Escrever neste blog, portanto, é um desafio e uma reaproximação com a escrita "parcial". Já não devo satisfações. Se existe uma maneira de tornar as coisas invioláveis, é oferecendo a chave do cadeado...

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